A Batalha de Marje Raite, também conhecida como Dia de Marje Raite (em árabe: يوم مرج راهط; romaniz.: Yawm Marj Rāhiṭ), foi um confronto travado em 18 de agosto de 684, durante a Segunda Guerra Civil Islâmica, entre uma coalizão de tribos favoráveis aos omíadas, liderada por Maruane ibne Aláqueme, e os caicitas partidários do califa rival Abedalá ibne Azobair, comandados por Adaaque ibne Caice Alfiri. O confronto ocorreu em Marje Raite, uma planície situada a nordeste de Damasco, após cerca de 20 dias de escaramuças entre os dois exércitos.
A batalha resultou numa vitória decisiva dos omíadas, apesar de suas forças estarem em inferioridade numérica. Adaaque e outros importantes chefes caicitas foram mortos, enquanto os sobreviventes se retiraram para Carquícia sob Zufar ibne Alharite Alquilabi. A vitória consolidou Maruane como califa em Damasco, assegurou a sobrevivência do Califado Omíada na Síria e permitiu que os omíadas passassem à ofensiva contra os zobaíridas. Nos anos seguintes, recuperaram o Egito e, sob Abedal Maleque, restabeleceram gradualmente sua autoridade sobre o Iraque e as províncias orientais.
Marje Raite também teve consequências duradouras para a organização política e tribal do califado. O confronto aprofundou a rivalidade entre os caicitas e os calbitas na Síria e contribuiu para o desenvolvimento de dois grandes agrupamentos tribais rivais, geralmente identificados como caicita-modarita e iemenita. Essa divisão continuou a influenciar a política do Califado Omíada durante as décadas seguintes e esteve associada às disputas tribais que marcaram a Terceira Guerra Civil Islâmica e o período final da dinastia omíada.
Com a morte do califa Moáuia ibne Abi Sufiane (r. 661–680), fundador do Califado Omíada, em 680, o mundo muçulmano mergulhou em um período de turbulência. Embora Moáuia tivesse designado seu filho Iázide I como herdeiro, essa escolha não foi universalmente reconhecida, sobretudo pelas antigas elites de Medina, que contestavam a pretensão dos omíadas de manter a sucessão ao califado dentro de seu clã. Entre elas, os dois principais candidatos ao califado eram Huceine ibne Ali, neto de Maomé e filho do quarto califa ortodoxo Ali, e Abedalá ibne Azobair, neto do primeiro califa ortodoxo Abu Becre e sobrinho de Aixa, esposa de Maomé. Huceine recusou-se a reconhecer Iázide e partiu para Cufa após receber convites dos notáveis da cidade, mas acabou morto na Batalha de Carbala, em outubro de 680, deixando Ibne Azobair como o mais proeminente adversário remanescente dos omíadas. Enquanto Iázide viveu, Ibne Azobair denunciou seu governo a partir do santuário de Meca, mas ainda não reivindicou abertamente o califado, insistindo, em vez disso, que o califa deveria ser escolhido segundo o método tradicional, por uma assembleia tribal (xura), dentre todos os coraixitas, e não apenas entre os omíadas. Após a revolta aberta de Medina contra o domínio omíada, Iázide enviou um exército à Arábia em 683, que derrotou os medinenses e sitiou Meca, mas sua morte em novembro obrigou a força expedicionária a regressar à Síria.
Iázide foi sucedido por seu filho Moáuia II, cuja autoridade ficou limitada às regiões central e meridional da Síria. Sua morte poucas semanas depois provocou uma crise sucessória, pois seus irmãos eram jovens demais para sucedê-lo. Como resultado, a autoridade omíada entrou em colapso por todo o califado, e Ibne Azobair foi reconhecido como califa pela maior parte do mundo muçulmano. O governador omíada do Iraque, Ubaide Alá ibne Ziade, foi expulso da província, moedas em nome de Ibne Azobair foram cunhadas na Pérsia, e as tribos caicitas do norte da Síria e da Jazira (Alta Mesopotâmia) aderiram à sua causa. O governador do Junde de Hómece, Anumane ibne Baxir, e os himiaritas que dominavam seu distrito apoiaram Ibne Azobair, assim como Natil ibne Caice, que expulsou o governador omíada do Junde da Palestina, Rau ibne Zimba Aljudami, seu rival entre os judamitas. Até mesmo muitos membros da família omíada cogitaram dirigir-se a Meca e prestar fidelidade a Ibne Azobair. As tribos favoráveis aos omíadas, contudo, sobretudo os calbitas sob Ibne Badal, dominavam o Junde da Jordânia e contavam com apoio em Damasco. Determinadas a instalar um membro da família omíada como califa, promoveram uma xura das tribos leais em Jabia, na qual Maruane ibne Aláqueme, primo distante de Moáuia I e antigo auxiliar próximo do califa Otomão (r. 644–656), foi reconhecido como califa.
Escaramuças iniciais e Batalha de Marje Raite
A eleição de Maruane provocou a reação dos caicitas, que se reuniram em torno do governador de Damasco, Adaaque ibne Caice Alfiri. Depois de hesitar entre os dois candidatos, Adaaque foi persuadido a reconhecer Ibne Azobair e começou a concentrar suas forças no campo de Marje Açufar, nas proximidades de Damasco. Em resposta, a coalizão omíada marchou sobre Damasco, que foi assegurada para Maruane por uma revolta liderada pelo nobre gassânida Iázide ibne Abi Animece. Os dois exércitos enfrentaram-se pela primeira vez em meados de julho de 684 na planície de Marje Açufar, e os caicitas foram empurrados em direção a Marje Raite, uma planície situada cerca de 17 quilômetros a nordeste de Damasco, entre as atuais cidades de Duma e Adra. Seguiram-se 20 dias de escaramuças entre os dois acampamentos, até que a batalha decisiva ocorreu em 18 de agosto. O número de combatentes de ambos os lados é incerto. Atabari atribui seis mil homens a Maruane; outra tradição menciona 13 mil para Maruane e 30 mil para Adaaque, enquanto Ibne Caiate eleva os números para 30 mil e 60 mil, respectivamente. As tradições concordam, contudo, que as forças omíadas estavam consideravelmente em inferioridade numérica.
Os comandantes de Maruane eram Abade ibne Ziade, Anre ibne Saíde Alaxedaque e Ubaide Alá ibne Ziade; segundo outra tradição, Ubaide Alá comandava a cavalaria e Maleque ibne Hubaira Açacuni, a infantaria. Do lado de Adaaque, conhece-se apenas um de seus comandantes, Ziade ibne Anre ibne Moáuia Alucaili. Entre os membros da família omíada que participaram da batalha, o jovem filho de Maruane, Bixer ibne Maruane, matou um chefe dos quilabitas, enquanto seu irmão Abedalazize ibne Maruane foi derrubado do cavalo durante os combates. Sobreviveram numerosos relatos individuais, anedotas e poemas relativos à batalha, mas os detalhes do confronto propriamente dito são pouco claros, exceto pelo fato de que o dia terminou com uma vitória esmagadora dos omíadas: os principais líderes caicitas, entre eles Adaaque, morreram no campo de batalha. Nikita Elisséeff explica o êxito omíada pela possível deserção, nas semanas anteriores, de tribos alinhadas aos caicitas interessadas em preservar a hegemonia síria sobre o califado. Elisséeff observa ainda que os omíadas continuavam controlando o tesouro estatal em Damasco, o que lhes permitia subornar tribos para que aderissem à sua causa. Os remanescentes do exército caicita fugiram para Carquícia, sob o comando de Zufar ibne Alharite Alquilabi, e Maruane foi oficialmente proclamado califa em Damasco.
A vitória em Marje Raite assegurou a autoridade dos omíadas na Síria e permitiu-lhes passar à ofensiva contra os zobaíridas. O Egito foi reconquistado ainda naquele ano, mas uma tentativa de recuperar o Iraque sob Ubaide Alá ibne Ziade foi derrotada pelas forças pró-álidas de Almoquetar Atacafi nas proximidades de Moçul, em agosto de 686. O califa Abedal Maleque, que sucedeu seu pai Maruane após a morte deste em abril de 685, passou então a concentrar-se na consolidação de sua própria posição, enquanto Muçabe ibne Azobair derrotou Almoquetar e conquistou o controle do Iraque em 687. Em 691, Abedal Maleque conseguiu reincorporar os caicitas de Zufar ibne Alharite ao campo omíada e, na Batalha de Masquim, derrotou Muçabe, restabelecendo a autoridade omíada sobre o Iraque e as províncias orientais. Em outubro de 692, após outro cerco de Meca, Abedalá ibne Azobair foi morto, e o domínio omíada sobre o califado foi restaurado.