Ida Lupino (4 de fevereiro de 1918 – 3 de agosto de 1995) foi uma atriz e cineasta britânica e americana. Ao longo de sua carreira de 48 anos, atuou em 59 filmes e dirigiu oito, trabalhando principalmente nos Estados Unidos, onde se tornou cidadã em 1948. Ela é amplamente considerada a cineasta feminina mais proeminente atuante na década de 1950, durante a era do sistema de estúdios de Hollywood. Com sua produtora independente, coescreveu e coproduziu vários filmes com mensagens sociais e se tornou a primeira mulher a filmar um noir, The Hitch-Hiker, em 1953.
Entre os outros filmes dirigidos por Lupino, os mais conhecidos são Not Wanted (1949), sobre gravidez fora do casamento (ela assumiu a direção no lugar de um diretor doente e recusou os créditos de direção); Never Fear (1950), vagamente baseado em suas próprias experiências lutando contra a paralisia causada pela poliomielite; Outrage (1950), um dos primeiros filmes sobre estupro; The Bigamist (1953); e The Trouble with Angels (1966). Sua curta, porém imensamente influente carreira como diretora, abordando temas de mulheres presas por convenções sociais, geralmente sob uma roupagem melodramática ou noir, é um exemplo pioneiro do cinema protofeminista. A artista também teve uma carreira de atriz atuando em produções como The Adventures of Sherlock Holmes (1939), They Drive by Night (1940), High Sierra (1941) e While the City Sleeps (1956).
Lupino também dirigiu mais de 100 episódios de programas de televisão em diversos gêneros, incluindo faroestes, contos sobrenaturais, sitcoms, mistérios de assassinato e histórias de gângsteres. Sendo a única mulher a dirigir um episódio da série original The Twilight Zone ("The Masks") e a única no cargo de direção a estrelar um episódio ("The Sixteen-Millimeter Shrine").
Ida Lupino nasceu no número 33 da Ardbeg Road, em Herne Hill, Londres, filha da atriz Connie O'Shea (também conhecida como Connie Emerald) e do comediante de music hall Stanley Lupino, membro da família teatral Lupino, que incluía Lupino Lane, um cantor e dançarino. Seu bisavô, George Hook Lupino (1828–1902), era um palhaço acrobata descendente de uma família italiana de marionetistas. Seu pai, um nome de destaque na comédia musical no Reino Unido, a incentivou a se apresentar desde cedo, construindo um teatro ao ar livre para ela e sua irmã Rita (1921–2016), que também se tornou atriz e dançarina. Ida escreveu sua primeira peça aos sete anos e fez turnê com uma companhia de teatro itinerante quando criança. Aos dez anos, havia memorizado os principais papéis femininos das peças de Shakespeare. Após todo esse treinamento e experiência em atuação teatral, o tio de Ida, Lupino Lane, a ajudou a dar o passo em direção à atuação cinematográfica, conseguindo para ela trabalho como figurante na British International Studios.
Ida queria ser escritora, mas, para agradar ao pai, matriculou-se na Royal Academy of Dramatic Art. Ela se destacou em vários papéis de "garota má" em filmes, muitas vezes interpretando prostitutas; no entanto, não gostava de ser atriz. Relatando que se sentia desconfortável com muitos dos primeiros papéis que lhe foram oferecidos e sentia que foi forçada a entrar na profissão devido ao seu histórico familiar.
Lupino fez sua primeira aparição no cinema em The Love Race (1931) e, no ano seguinte, aos 14 anos, trabalhou com o diretor Allan Dwan em Her First Affaire em um papel para o qual sua mãe havia feito um teste anteriormente. Ela desempenhou papéis principais em cinco filmes britânicos em 1933 nos estúdios Teddington da Warner Bros. e para Julius Hagen em Twickenham, incluindo The Ghost Camera com John Mills e I Lived with You com Ivor Novello. Sobre seus primeiros papéis, comentou: "Meu pai me disse uma vez: 'Você nasceu para ser má', e era verdade. Fiz oito filmes na Inglaterra antes de vir para a América, e interpretei uma vagabunda ou uma prostituta em todos eles".
Comercializada como "a Jean Harlow inglesa", ela foi descoberta pela Paramount no filme Money for Speed (1933), interpretando um papel duplo de mocinha e má. Lupino afirmou que os olheiros a viram interpretar apenas a garota doce e não o papel da prostituta, então acabou sendo convidada a fazer um teste para o papel principal em Alice no País das Maravilhas (1933). Quando chegou a Hollywood, os produtores da Paramount não sabiam o que fazer com sua sensual potencial protagonista, mas conseguiu um contrato de cinco anos. Enquanto estava na Paramount, interpretou o papel principal em uma produção teatral de The Pursuit of Happiness no Paramount Studio Theatre. A artista estrelou mais de uma dúzia de produções em meados da década de 1930, enquanto estava sob contrato com a Paramount. Porém, deixou o estúdio no final de 1937, insatisfeita com seus papéis, e permaneceu fora das telas por mais de um ano. Em seguida, mudou-se para a Columbia Pictures em um contrato para dois longas em 1939 e na 20th Century-Fox em As Aventuras de Sherlock Holmes (1939), após o qual retornou à Paramount para um papel importante em A Luz Que Se Apaga (1939). Este foi um papel que ela conseguiu depois de aparecer sem avisar no escritório do diretor William Wellman, exigindo uma audição.
Mark Hellinger, produtor associado da Warner Bros., ficou impressionado com a atuação de Lupino em A Luz Que Se Apaga e a contratou para o papel de femme fatale em They Drive by Night (1940), dirigido por Raoul Walsh contracenando com George Raft, Ann Sheridan e Humphrey Bogart. O longa-metragem foi bem-sucedido e a crítica concordou que Lupino roubou a cena, particularmente na cena no tribunal. A Warner Bros. ofereceu-lhe um contrato que ela negociou para incluir alguns direitos de trabalho freelancer. Ela trabalhou novamente com Walsh e Bogart em High Sierra (1941), onde impressionou o crítico Bosley Crowther em seu papel como uma "amante adoradora". Sua atuação em The Hard Way (1943) lhe rendeu o prêmio de Melhor Atriz do Associação de Críticos de Nova Iorque. Ela estrelou Pillow to Post (1945), que foi seu único papel cômico principal.
Ela frequentemente atraía a ira do chefe do estúdio, Jack Warner, ao se opor às suas escalações, recusando papéis mal escritos que considerava indignos de sua dignidade como atriz e fazendo revisões de roteiro consideradas inaceitáveis pelo estúdio. Como resultado, passou grande parte do seu tempo na Warner Bros. suspensa. Em 1941, recusou um papel coadjuvante no longa Em Cada Coração um Pecado e um papel principal em Juke Girl, sendo suspensa pelo estúdio. Em poucos meses, uma reaproximação foi negociada, mas seu relacionamento com a instituição permaneceu tenso nos anos seguintes. Após o término das filmagens do drama Deep Valley (1947), Lupino deixou a Warner Brothers, tendo recusado um contrato exclusivo de quatro anos. Um ano depois, apareceu para a 20th Century Fox como uma cantora de boate no filme noir Com o Amor Nasceu o Ódio.
Diretor, roteirista e produtor – The Filmakers Inc.
Durante o período de suspensão, Lupino teve bastante tempo para observar os processos de filmagem e edição, e interessou-se pela direção. Ela descreveu o quão entediada se sentia no set enquanto "alguém parecia estar fazendo todo o trabalho interessante", e disse "É muito mais divertido. Criar você mesmo, não apenas desfilar na frente de uma câmera".
Ela e seu então marido, o produtor e roteirista Collier Young formaram uma empresa independente, The Filmakers.Inc., para "produzir, dirigir e escrever filmes de baixo orçamento e com foco em questões sociais". Sendo formada em 1948 com Lupino como vice-presidente, Collier Young como presidente e o roteirista Malvin Wald como tesoureiro. Os Filmakers produziram 12 longas-metragens, seis dos quais a cineasta dirigiu ou codirigiu, cinco dos quais escreveu ou coescreveu, três dos quais ela atuou e um dos quais ela coproduziu. A missão dos Filmakers era fazer filmes socialmente conscientes, incentivar novos talentos e trazer realismo para a tela. Seu objetivo era contar "como a América vive" por meio de filmes B independentes filmados em duas semanas por menos de US$ 200.000 com uma "família" criativa, "o toque da verdade" enfatizado por histórias baseadas em fatos – uma combinação de "significado social" e entretenimento. Em longas curtos e de baixo orçamento, exploraram temas praticamente tabus como estupro em Outrage (1950) e bigamia em The Bigamist (1953). Este último recebeu críticas muito positivas na época do lançamento, com Howard Thompson do The New York Times chamando-o de "a melhor oferta dos cineastas até o momento". O trabalho de direção mais conhecido de Lupino, The Hitch-Hiker, uma produção influenciada pelos assassinatos de Billy Cook lançado pela RKO de 1953 com Edmond O'Brien ao lado de William Talman e Frank Lovejoy, é o único filme noir do período clássico do gênero dirigido por uma mulher.