Léon Walras (Évreux, 16 de dezembro de 1834 – Montreux, 5 de janeiro de 1910) foi um economista francês cuja carreira acadêmica ocorreu integralmente na Universidade de Lausanne, na Suíça.
Embora tenha marcado profundamente a história da ciência econômica, seu pensamento teve dificuldades para se firmar na França. Tendo como única titulação acadêmica dois diplomas de baccalauréat, Walras contou, apesar de tudo, com o constante apoio de seu pai, Auguste Walras, um inspetor escolar apaixonado por economia, de quem herdou em grande medida a doutrina econômica. Foi graças a Louis Ruchonnet, um político radical do cantão de Vaud que também ocupou funções públicas nacionais na Suíça, que foi nomeado professor nessa instituição. Foi ainda Ruchonnet quem o auxiliou a divulgar sua obra. Para o líder político suíço, tratava-se também de consolidar a reputação da Universidade de Lausanne.
Para compreender a obra completa de Walras — e não apenas a sua parte mais conhecida, centrada na noção de equilíbrio geral —, é importante recordar que ele distinguia três tipos de economia: a economia pura, a economia social e a economia aplicada. A economia pura é o objeto de uma ciência pura que estuda fatos naturais dependentes de forças cegas e fatais. A economia social, objeto de uma ciência pura moral e de uma ciência pura aplicada, visa definir um ideal de justiça. Já a economia política aplicada tem como propósito fornecer diretrizes para a ação.
Walras é conhecido sobretudo por seu livro Éléments d'économie politique pure, obra na qual as trocas só se realizam após um tateamento (denominado walrasiano), conduzido por um hipotético leiloeiro, permitir atingir o equilíbrio de mercado. Com base nisso, ele demonstra matematicamente, a partir de uma única hipótese — a escassez —, a existência de um equilíbrio geral. É esse conceito de equilíbrio geral que levou Joseph Schumpeter a considerar Walras como o maior de todos os economistas
"The greatest of all economists." Schumpeter, Joseph (1954). History of Economic Analysis (em inglês). [S.l.: s.n.] 827 páginas .. A noção de equilíbrio geral foi rapidamente adotada por grandes economistas, como Vilfredo Pareto, Knut Wicksell e Gustav Cassel. Situando-se principalmente no campo da análise econômica, John Hicks e Paul Samuelson utilizaram a contribuição walrasiana na elaboração da síntese neoclássica. Por sua vez, Kenneth Arrow e Gérard Debreu, adotando a perspectiva da lógica e da matemática, procuraram determinar as condições necessárias para que haja equilíbrio.
Os escritos de Walras sobre a economia social e a economia aplicada foram bem menos apreciados por Schumpeter e por Vilfredo Pareto, o sucessor de Walras em Lausanne, que considerava a economia social walrasiana uma obra de metafísica. Essa vertente de sua obra passou a ser examinada de forma sistemática de modo tardio, sobretudo graças às pesquisas realizadas a partir da década de 1980 pelo Centro Auguste e Léon Walras da Universidade de Lyon II. Essa parte de sua produção, profundamente marcada pela economia política em oposição à ciência econômica pura, ofereceu ao economista de Lausanne a oportunidade de se posicionar em relação aos seus contemporâneos. Ele criticou Proudhon, os saint-simonianos, os fourieristas e os marxistas, sofrendo, porém, influência da escola democrática de Étienne Vacherot. Essa faceta levou os especialistas em Walras a debaterem se ele deveria ser considerado liberal ou socialista.
Para Pierre Dockès, Walras foi um socialista singular, ao passo que para Pierre Herland ele teria sido sobretudo liberal, e para Jean-Pierre Potier, um socialista liberal. Seu liberalismo, contudo, não se confunde com o da escola austríaca, a qual, em geral, tem pouca simpatia pelo equilíbrio geral. Para delinear alguns dos traços fundamentais do pensamento de Walras nesse campo, convém lembrar que, a seu ver, o Estado detém uma racionalidade superior à dos indivíduos no domínio que lhe é próprio. O seu papel consiste essencialmente em regular a economia de mercado, combatendo os monopólios e gerindo de forma direta os monopólios naturais. Do ponto de vista social, Walras mantinha uma visão meritocrática do mundo. Assim, segundo ele, o Estado não tem o dever de corrigir as desigualdades naturais, cabendo-lhe apenas assegurar que as regras do jogo sejam iguais para todos. Por fim, acreditava que, por meio do crédito, seria possível democratizar simultaneamente o capital e a sociedade.
Nascido em 1834, Léon Walras era filho de Auguste Walras, um ex-aluno da Escola Normal Superior apaixonado por economia, professor de filosofia e posteriormente inspetor escolar. Léon Walras cursou os estudos secundários no colégio de Caen (atual Lycée Malherbe) e, a partir de 1850, no liceu de Douai. Após obter os diplomas de bachelier ès lettres em 1851 e de bachelier ès sciences em 1853, foi reprovado pela primeira vez no exame de admissão à École Polytechnique. Em 1854, tentou novamente a aprovação, sem sucesso. A pedido do pai, matriculou-se então como aluno externo na École des Mines de Paris, mas também fracassou nos estudos.
Em 1856, decidiu dedicar-se à literatura e enviou seu romance Francis SauveurWalras, Léon (1858). Francis Sauveur (em francês). [S.l.: s.n.] Consultado em 10 de novembro de 2019. Cópia arquivada em 14 de novembro de 2025 . à Revue des Deux Mondes. O manuscrito foi recusado e acabou sendo publicado em edição paga pelo próprio autor. Nessa época, seu pai sofria com os insucessos do filho, especialmente porque precisava prover o sustento de Léon e da companheira com quem este convivia maritalmente, uma mãe solo. Léon Walras era então o único filho sobrevivente de Auguste Walras, após a morte de seus outros filhos, Henri (nascido em 1836 e falecido em 1847) e Louis (nascido em 1844 e falecido em 1858). Foi durante uma conversa entre pai e filho, em um passeio às margens do Gave de Pau, que Léon Walras decidiu dedicar-se à economia.
Meu pai afirmou-me com energia que havia duas grandes tarefas a serem cumpridas no século XIX: terminar de criar a história e começar a criar a ciência social. Ele não suspeitava então de quanto Ernest Renan lhe daria satisfação sobre o primeiro ponto. O segundo, que o havia preocupado por toda a vida, o tocava de forma ainda mais sensível. Insistia nisso com uma convicção que transmitiu a mim. E foi então que, diante do portão de uma propriedade rural chamada “Les Roseaux”, prometi-lhe deixar a literatura e a crítica de arte para me dedicar inteiramente à continuação de sua obra.
Walras do final dos anos 1850 a 1869
Após essa «iluminação», Walras começou a redigir artigos para o jornal La Presse, de Émile de Girardin, e para o Journal des économistes, além de livros dedicados à economia política. Ao escrever L'Économie politique et la Justice, obra de refutação das teses de Proudhon, teve a sua segunda iluminação. Ele escreveu:
transcrevi ali as leis de variação de valor dos capitais e dos serviços fundiários, pessoais e mobiliários em uma sociedade progressiva, tais como meu pai as havia fornecido em sua Théorie de la richesse sociale; contudo, pareceu-me desde então que, feita na linguagem ordinária, a demonstração dessas leis era insuficiente e que, para torná-la rigorosa, teria sido necessário dar-lhe a forma matemática.
Essa conversão à matematização da economia deveu-se também, em grande medida, a uma conversa que manteve com o engenheiro politécnico saint-simoniano Lambert-Bey. Quando Léon Walras lhe apresentou sua primeira obra econômica, Lambert-Bey enfatizou que não bastava afirmar que a livre concorrência proporciona o máximo de utilidade
, sendo imperioso prová-lo matematicamente.
Em 1860, os radicais que ascenderam ao poder em Lausanne, na Suíça, organizaram um congresso sobre tributação. Estimulado pelo pai, Léon Walras participou do evento para apresentar a tese paterna de que a nacionalização das terras seguida de seu arrendamento deveria custear as despesas do Estado. A defesa dessa proposta levou-o a criticar outros modelos de financiamento das contas públicas, inclusive o imposto sobre o capital defendido por Émile de Girardin, proprietário do La Presse, e o imposto sobre a renda, advogado no mesmo congresso por Joseph Garnier, diretor do Journal des économistes. Durante o congresso, ele conseguiu a façanha de indispor-se com seus dois principais empregadores e obteve apenas uma modesta menção honrosa (quarto lugar), enquanto o primeiro prêmio coube a seu adversário, Proudhon. Apesar disso, sua atuação chamou a atenção de Louis Ruchonnet, líder político de Lausanne com promissora trajetória pública.