A ruptura sino-soviética foi a deterioração gradual das relações entre a República Popular da China e a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) durante a Guerra Fria. Ela foi causada principalmente por divergências decorrentes das diferentes interpretações e aplicações práticas do marxismo-leninismo pelos dois países, influenciadas por suas respectivas geopolíticas durante a Guerra Fria de 1947–1991. No fim da década de 1950 e no início da década de 1960, os debates sino-soviéticos sobre a interpretação do marxismo ortodoxo transformaram-se em disputas específicas acerca das políticas soviéticas de desestalinização interna e de coexistência pacífica internacional com o Bloco Ocidental, que o líder chinês Mao Tsé-Tung denunciava como revisionismo. Nesse contexto ideológico, a China adotou uma postura beligerante em relação ao mundo ocidental e rejeitou publicamente a política soviética de coexistência pacífica entre o Bloco Ocidental e o Bloco de Leste. Além disso, a China ressentia-se dos crescentes laços da União Soviética com a Índia, por fatores como a disputa de fronteira sino-indiana, enquanto a União Soviética temia que Mao não se preocupasse com as consequências drásticas de uma guerra nuclear.
Em 1956, o líder soviético Nikita Khrushchov denunciou Josef Stalin e o stalinismo no discurso "Sobre o Culto à Personalidade e Suas Consequências" e iniciou a desestalinização da URSS. Mao e a liderança chinesa ficaram consternados à medida que a RPC e a URSS se afastavam progressivamente em suas interpretações e aplicações da teoria leninista. Em 1961, suas diferenças ideológicas inconciliáveis levaram a RPC a denunciar formalmente a ideologia comunista soviética como obra de "traidores revisionistas" na URSS. A RPC também declarou a União Soviética social-imperialista. A União Soviética, por sua vez, criticou Mao Tsé-Tung e as práticas chinesas durante a posterior Revolução Cultural. Para os países do Bloco de Leste, a ruptura sino-soviética tornou-se uma disputa sobre quem lideraria a revolução pelo comunismo mundial e a quem — China ou URSS — os partidos de vanguarda do mundo recorreriam em busca de orientação política, auxílio financeiro e assistência militar. Nesse sentido, os dois países competiram pela liderança do comunismo mundial por meio dos partidos revolucionários nativos dos países situados em suas esferas de influência. O conflito culminou após o incidente fronteiriço da ilha de Zhenbao, em 1969, depois do qual a União Soviética teria considerado a possibilidade de lançar um ataque nuclear de grande escala contra a China, e a liderança chinesa, incluindo Mao, foi evacuada de Pequim, antes que ambos os lados acabassem retomando as negociações diplomáticas.
No mundo ocidental, a ruptura sino-soviética transformou uma Guerra Fria bipolar em uma Guerra Fria tripolar. A rivalidade facilitou a concretização, por Mao, da reaproximação sino-americana com a visita do presidente dos Estados Unidos Richard Nixon à China em 1972. No Ocidente, surgiram as políticas de diplomacia triangular e vinculação. Assim como a ruptura Tito–Stalin, a ruptura sino-soviética também enfraqueceu o conceito de comunismo monolítico, a percepção ocidental de que as nações comunistas eram ideologicamente e, portanto, politicamente unidas. Entretanto, a URSS e a China continuaram a cooperar com o Vietnã do Norte durante a Guerra do Vietnã até a década de 1970, apesar da rivalidade em outros campos. Historicamente, a ruptura sino-soviética facilitou a Realpolitik marxista-leninista por meio da qual Mao estabeleceu a geopolítica tripolar (RPC–EUA–URSS) do período final da Guerra Fria (1956–1991), a fim de criar uma frente antissoviética, que os maoístas relacionaram à Teoria dos Três Mundos. Segundo Lüthi, não há "nenhuma evidência documental de que os chineses ou os soviéticos tenham pensado sua relação dentro de uma estrutura triangular durante o período".
Durante a Segunda Guerra Sino-Japonesa, o Partido Comunista da China (PCC) e o partido nacionalista Kuomintang (KMT) deixaram de lado sua guerra civil para expulsar o Império do Japão da República da China. Para esse fim, o líder soviético Josef Stalin ordenou a Mao Tsé-Tung, líder do PCC, que cooperasse com Chiang Kai-shek, líder do KMT, na luta contra os japoneses. Após a rendição do Japão no fim da Segunda Guerra Mundial, os dois partidos retomaram sua guerra civil, vencida pelos comunistas em 1949 na Revolução Comunista Chinesa.
Ao término da Segunda Guerra Mundial, Stalin aconselhou Mao a não tomar o poder político naquele momento e, em vez disso, a colaborar com Chiang por causa do Tratado de Amizade e Aliança URSS–KMT de 1945. Mao obedeceu a Stalin em nome da solidariedade comunista. Três meses após a rendição japonesa, em novembro de 1945, quando Chiang se opôs à anexação de Tannu Uriankhai (Mongólia) pela URSS, Stalin rompeu o tratado que exigia a retirada do Exército Vermelho da Manchúria — dando a Mao o controle regional — e ordenou ao comandante soviético Rodion Malinovski que entregasse aos comunistas chineses as armas japonesas remanescentes.
Nos cinco anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos financiaram parcialmente Chiang, seu partido nacionalista e o Exército Nacional Revolucionário. Washington, entretanto, exerceu forte pressão sobre Chiang para que formasse um governo conjunto com os comunistas. O enviado dos Estados Unidos George C. Marshall passou 13 meses na China tentando, sem sucesso, mediar a paz. Nos três anos finais da Guerra Civil Chinesa, o PCC derrotou e expulsou o KMT da China continental. Consequentemente, o KMT retirou-se para Taiwan em dezembro de 1949.
Como teórico revolucionário do comunismo que buscava estabelecer um Estado socialista na China, Mao desenvolveu e adaptou a ideologia urbana do marxismo ortodoxo para aplicação prática às condições agrárias da China pré-industrial e do povo chinês. A sinicização do marxismo-leninismo por Mao, o Pensamento de Mao Tsé-Tung, estabeleceu o pragmatismo político como prioridade para realizar a modernização acelerada de um país e de um povo, e a ortodoxia ideológica como prioridade secundária, porque o marxismo ortodoxo surgira para aplicação prática às condições socioeconômicas da Europa Ocidental industrializada no século XIX.
Durante a Guerra Civil Chinesa, em 1947, Mao enviou a jornalista norte-americana Anna Louise Strong ao Ocidente levando documentos políticos que explicavam o futuro socialista da China e pediu que ela os "mostrasse aos dirigentes partidários nos Estados Unidos e na Europa", para que compreendessem melhor a Revolução Comunista Chinesa, acrescentando que não era "necessário levá-los a Moscou".
Mao confiava em Strong por causa de suas reportagens favoráveis sobre ele como teórico do comunismo, no artigo "The Thought of Mao Tse-Tung", e sobre a revolução comunista do PCC, no livro de 1948 Dawn Comes Up Like Thunder Out of China: An Intimate Account of the Liberated Areas in China, segundo o qual a realização intelectual de Mao foi "transformar o marxismo de uma forma europeia em uma forma asiática [...] de maneiras com as quais nem Marx nem Lenin poderiam sonhar".[carece de fontes]?
Tratado de amizade sino-soviético
Em 1950, Mao e Stalin salvaguardaram os interesses nacionais da China e da União Soviética com o Tratado de Amizade, Aliança e Assistência Mútua. O tratado melhorou as relações geopolíticas entre os dois países nos âmbitos político, militar e econômico. A generosidade de Stalin para com Mao incluiu um empréstimo de 300 milhões de dólares; ajuda militar caso o Japão atacasse a RPC; e a transferência da Ferrovia Oriental Chinesa, na Manchúria, de Port Arthur e de Dalian para o controle chinês. Em troca, a RPC reconheceu a independência da República Popular da Mongólia.
Apesar das condições favoráveis, o tratado de amizade socialista inseriu a RPC na hegemonia geopolítica da URSS; contudo, diferentemente dos governos dos Estados satélites soviéticos da Europa Oriental, a URSS não controlava o governo de Mao. Em seis anos, as grandes diferenças entre as interpretações e aplicações soviética e chinesa do marxismo-leninismo esvaziaram o Tratado de Amizade Sino-Soviético.